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Carta Pastoral de D. António Moiteiro

Jubileu extraordinário da Misericórdia

Carta Pastoral de D. António Moiteiro

Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso (Lc 6,36)

Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7)

No dia 13 de março de 2015, data do segundo aniversário da sua eleição, o Papa Francisco anunciou um Jubileu extraordinário dedicado à Misericórdia. Neste sentido, publicou, no passado dia 11 de abril, a Bula de Proclamação do Ano Santo intitulada Misericordiae Vultus. Este Ano Santo terá início a 8 de dezembro de 2015, em Roma, solenidade da Imaculada Conceição, e a 13 de dezembro em todas as Dioceses, concluindo-se a 20 de novembro de 2016, domingo de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, rosto vivo da misericórdia do Pai. Misericordiosos como o Pai é o lema deste Ano Santo.

 

 

1. Significado e fundamento da misericórdia

Atualmente, a palavra misericórdia parece não ter lugar no vocabulário. Fruto da cultura e mentalidade contemporâneas, que tendem a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia, é imprescindível torná-la conhecida, trazê-la à existência com o significado e atributos que ela merece.

A palavra ‘misericórdia’ significa ‘coração sensível’. Não um ‘sensível’ no sentido de um simples sentimento, mas um ser ‘sensível à miséria’; um coração atento à necessidade do outro, sobretudo do frágil, do pobre.

Na Sagrada Escritura, a ‘misericórdia’ é a palavra-chave para indicar o agir de Deus em nosso favor. No Antigo Testamento verificamos que o conceito da misericórdia de Deus foi evoluindo. A misericórdia de Deus era vista como a benevolência de um Deus Todo Poderoso mas distante, que estava no Céu e a enviava ao seu povo nos momentos mais difíceis da história; a sua bondade prevalecia sobre o castigo e a destruição. No Novo Testamento, com Jesus a Aliança de Deus estende-se a toda a humanidade. Jesus Cristo revelou a sua plenitude. «A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer» (Jo 1,18).

Deus é a fonte e a origem da verdadeira misericórdia, só Ele é totalmente misericordioso. Por isso, podemos cantar ‘Kyrie eleison’ (Senhor, misericórdia), quer dizer, ‘Senhor, inclina-Te para nós’. Em Jesus Cristo revela-se o rosto da misericórdia do Pai. «Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus» (MV nº1). Mais ainda, Jesus não veio ao mundo pelos justos, mas sim pelos pecadores.

O tema da misericórdia exige ser reproposto com um novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe ela mesma a misericórdia.

2. A Misericórdia é o modo de amar de Deus

A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história de salvação. A grande mensagem de Deus é a misericórdia. Na misericórdia temos a prova de como Deus ama. Deus, Aquele que está presente, que é próximo, providente, santo e misericordioso, não veio para condenar, mas para salvar. A misericórdia de Deus é maior do que qualquer pecado! Paciente e misericordioso é o binómio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus. A Misericórdia é o autêntico nome de Deus. Sendo que Deus é amor-caridade, a misericórdia pode considerar-se o coração de toda a espiritualidade cristã.

A riqueza da misericórdia de Deus manifestou-se através de Jesus Cristo que encarnou e “armou a sua tenda entre nós”. (cf. Lc 1,14). Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus. A missão que Jesus recebeu do Pai foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. «Deus é amor» (1 Jo 4, 8.16), afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João. «Quem o vê, vê o Pai» (cf. Jo 14,9). Agora, este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que nunca se dá por vencido, enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia. Tudo nele fala de misericórdia. Nele, nada há que seja desprovido de compaixão.

S. Paulo, que aborda, por várias vezes, o tema da misericórdia, refere que na pessoa de Jesus Cristo, nas suas palavras e ações, se revela o “Pai da misericórdia e o Deus de toda consolação” (2 Cor 1,3). Ainda, é através da misericórdia que “Deus manifesta a sua caridade para com o ser humano” (Rm 5,8). Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por elas (cf. Mt 9,36). Em virtude deste amor compassivo, curou os doentes que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14,14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15,37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia.

«Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia». Esta misericórdia de Deus para cada um de nós introduz-nos no dinamismo do perdão e da reconciliação com o próprio Deus e, sobretudo, com o irmão. A pessoa movida por misericórdia reconhece e sente a sua própria fragilidade e pequenez, sendo ela mesma sinal de misericórdia. Para fazermos emergir Jesus como o rosto misericordioso de Deus Pai, temos de agir do mesmo modo, deixar-nos imbuir da sua palavra e agir em conformidade com ela.

3. O discípulo de Jesus Cristo, um agente de misericórdia

Os ensinamentos de Jesus convidam a não responder ao mal com o mal. Mais ainda, Jesus desafia-nos também a deixar de condenar e julgar os outros, pondo em prática aquilo que Ele mesmo diz: «Não julgueis, para não serdes julgados; (…) Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista?» (Mt 7,1-3).

A fé cristã supõe a atenção ao outro. Quem se torna um discípulo de Jesus Cristo deve ser um agente da misericórdia de Deus para com as pessoas, os pobres e os pecadores.

Em toda a sua vida, Jesus identificou-se com aquelas pessoas cuja dignidade estava, por vezes, diminuída ou fragilizada. Ter misericórdia é a configuração por excelência do rosto dos seguidores e seguidoras de Jesus. É o uso da ‘misericórdia’ que capacita as pessoas na prática do relacionamento de proximidade com os outros e com Deus. «Como parece difícil, tantas vezes, perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz» (MV nº9).

Jesus, no discurso das bem-aventuranças, exorta os ouvintes a serem misericordiosos tal como Deus Pai é misericordioso. «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6,36). O mesmo sentido se pode ver nas cartas de Paulo: assim como Deus é misericordioso, também os cristãos devem mostrar os mesmos sentimentos para com os seus semelhantes, devendo revestir-se de “entranhas de misericórdia” (cf. Cl 3,12; Fl 2,1). Este é um desafio e programa de vida proposto a todos, mas temos que nos pôr à escuta da Palavra de Deus, lê-la, meditá-la e assumi-la na vida, na certeza de que seremos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.

Abrir o coração à misericórdia é viver “as obras de misericórdia”, fazer a experiência do encontro, da ‘peregrinação’ pelas variadas periferias existenciais. O Papa Francisco pede-nos que redescubramos e ponhamos em prática, na catequese e na pastoral das nossas comunidades cristãs, as obras de misericórdia. «É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos» (MV nº 15).

4. Abrir a porta à misericórdia de Deus

Jesus apresenta-se como a “porta das ovelhas” (Jo 10,7). Apenas através de Jesus se pode aceder legitimamente às ovelhas e só através d’Ele as ovelhas encontram a salvação e a liberdade. A ‘porta’ é símbolo de entrada e saída: de entrada, enquanto expressão de querer integrar uma comunidade que anuncia, celebra e vive a sua fé; e de saída, enquanto nos abre ao mundo, espaço onde o cristão deve testemunhar a sua fé e construir uma sociedade nova.

A finalidade do Evangelho é abrir-nos a porta de acesso a Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Quando no dia treze de dezembro, às dezasseis horas, abrirmos a porta da nossa Catedral, quereremos tomar consciência desta realidade: que somos uma comunidade crente que celebra a sua fé e, ao mesmo tempo, quer sair para o mundo, para aí nos afirmarmos e testemunharmos o nosso ser cristão.

O Jubileu, que aparece já no Antigo Testamento como um tempo, essencialmente, de perdão de dívidas (Lev 25, 8-17), apela a que cada um de nós, individual e comunitariamente, se empenhe também em ser sinal de reconciliação e de santificação. Os meios propostos para a vivência deste Ano Jubilar são a peregrinação, o jejum/partilha, o sacramento da reconciliação e a indulgência.

A ‘peregrinação’, imagem de caminho, deve levar-nos a sair ao encontro dos que andam mais afastados da fé e dos ‘feridos’ da sociedade. As periferias existem quer na nossa Igreja quer na sociedade.

O ‘jejum’ só tem sentido se for partilhado, nomeadamente com os mais débeis.

A ‘reconciliação’, na qual o sacramento da penitência é um dos momentos importantes, deve ser um sinal da misericórdia do Pai, traduzida, entre nós, em gestos significativos e como redobrado apelo à conversão e mudança de vida.

A ´indulgência´ consiste na receção de uma graça especial concedida pelo Santo Padre, enquanto mediador e dispensador do tesouro da graça da Igreja. Os sacramentos da eucaristia e da confissão, a caridade e a oração pelas intenções do Santo Padre são as condições indispensáveis para ‘lucrar’ a indulgência.

Como momentos importantes na vida da nossa Igreja Diocesana, e que constam do nosso Plano Diocesano de Pastoral, cujo lema é “Igreja de Aveiro, vive a alegria da misericórdia”, assinalamos as caminhadas de Advento/Natal e a Quaresma/Páscoa, com dinâmicas e temas de formação cristã sobre a misericórdia; as ‘vinte e quatro horas para o Senhor’, nos dias quatro e cinco de março; a peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, culminando com o Dia da Igreja Diocesana, em dez de abril, e a preparação diocesana para o Congresso Eucarístico Nacional, a realizar em Fátima, entre os dias dez e doze de junho. Para além destes momentos, deseja-se que toda a Pastoral dos secretariados, arciprestados, paróquias e movimentos apostólicos se mobilize em ordem à vivência da misericórdia, que é o modo de amar de Deus, o seu autêntico nome, que se humaniza em Jesus Cristo e no estilo de vida dos seus discípulos.

Que por meio do nosso anúncio e das nossas obras, possa chegar a todos o bálsamo da misericórdia como sinal do reino de Deus já presente no meio de nós, proclamando: «Sede misericordiosos como vosso Pai Celeste é misericordioso» (Lc 6,36).

Maria, a Mãe da Misericórdia, e Santa Joana nossa Padroeira, nos acompanhem com a força da sua intercessão e o estímulo do seu exemplo.

Aveiro, 13 de dezembro de 2015

+ António Moiteiro, vosso bispo e irmão

 
 

 
 
 
 
 

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